quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Cenas do Cotidiano

Ando muito por aí, quem me conhece sabe. Sou uma andarilha - apesar de já ter sido bem mais - e observo muito as coisas que acontecem ao meu redor. Muitas delas dariam posts muito interessantes e outros penderiam pro lado do reflexivo. Passei por um caso um dia em Higienópolis - acho - num ponto de ônibus na Linha Amarela, numa manhã onde eu tinha que ir pra Barra da Tijuca (uma daquelas manhãs quentes, onde você implora pro ônibus vir correndo e de preferência, com ar condicionado), onde o ponto de ônibus estava abarrotado de gente.

No dia em questão, estava especialmente de blusa branca - o que é raríssimo, já que eu não curto muito a cor branca - e vocês podem perguntar o que raios a blusa branca tem a ver com a história, mas já vai fazer sentido; de repente olho para o lado e vejo um burburinho no ponto de ônibus, com as pessoas olhando somente para um canto. Não me contive de curiosidade e olhei: era um menino com os cabelos encaracolados, loiro, sujo DEMAIS. Não estava fazendo nada de mais - achei eu - até que ele se aproximou de uma moça que estava ao meu lado e pediu alguma coisa. Mas aí veio a cena que me chocou: ELE A ABRAÇOU!!! WTF????? e depois estendeu a mão. Não saquei. Até que ele veio até mim.

Lépido e fagueiro, ele veio até mim - enquanto eu rezava para que meu ônibus com ar condicionado viesse depressa e vazio, para que eu pudesse sentar - e me perguntou se poderia me dar um abraço. Minha cabeça ficou com trocentos pontos de interrogação, mas foi coisa rápida e logo saiu um sonoro NÃO!!! Daqueles que se houve à distância e em bom tom. Todos me olharam. E eu ainda completei, prestes a ser alvejada por pedras, dizendo que eu estava de blusa branca, coisa rara, não ia rolar. A moça ao meu lado, aquela que recebeu o abraço, soltou uma gargalhada. E o menino fez uma cara triste, daquelas que comovem alguns - somente alguns - e disse, na maior: mas eu só queria um real. Ai eu parei, pensei rápido e perguntei: você está trocando abraços por dinheiro? E ele disse que sim, com a maior naturalidade. As pessoas que antes estavam querendo me atirar pedras, chegaram mais perto para entender o meu embate com o menino aparentemente carinhoso e gentil, e quando finalmente perceberam do que se tratava, todos, sem exceção, foram contra ele, que ficou tenso, certamente pensou que ia dar merda e saiu correndo.

Uma senhorinha, daquelas bem arrumadinhas, ficou perto de mim e daquela moça que recebeu o abraço e logo quis saber do que se tratava. Explicamos para ela, que o menino chegava, perguntava se poderia te dar um abraço e caso você assentisse, ele dava o abraço mas depois esticava a mão pedindo dinheiro. Alguns davam o dinheiro com medo, outros davam por pena e outros não davam de modo algum (e outros recusavam terminantemente o abraço, tipo eu, cortando logo o mal pela raiz). E a senhorinha manda, sem pestanejar: GENTE, FALTA AMOR PARA AS PESSOAS? QUE TIPO DE GENTE PAGA PRA RECEBER UM ABRAÇO???  Foi um tapa na cara das pessoas que estavam no ponto. Algumas balançaram a cabeça, como se pedissem desculpas, enquanto outros concordavam silenciosamente. 

Meu ônibus finalmente estava vindo, demorou 30 minutos para vir, mas valeu a pena. Dei um abraço grátis na senhorinha - e não me importei se estava de branco ou se ela estava fedida, e não estava - e entrei no ônibus. Ela sorriu. Provavelmente nunca mais a encontrarei, o que não posso dizer do menino sujinho do cabelo dourado, que deve estar pedindo dinheiro ainda, mas que deve ter abandonado a tática do abraço e facilitado as coisas ao simplesmente pedir dinheiro. 

Mas a pergunta fica no ar: TÁ FALTANDO AMOR?